06
Fev

À procura do negócio futebol perfeito

Desde que o futebol brasileiro sofreu algumas transformações para receber traços de profissionalismo em sua estrutura, principalmente após a Lei Pelé entrar em vigor, extinguindo o passe (entre outras medidas) e fazendo com que os atletas deixassem de ser propriedade dos clubes após o fim do contrato, diversos personagens emergiram na indústria futebolística brasileira. Todos ávidos por uma boquinha no “negócio futebol”, o termo da moda, e que dá a entender que o futebol brasileiro faz jorrar dinheiro para tudo o que é lado. Mas será que o futebol é realmente essa mina de ouro?

Vanderlei Luxemburgo, por exemplo, é um dos maiores fãs da expressão negócio futebol, ou melhor, “negóxio futebol”. Não há uma entrevista coletiva em que ele não fale sobre isso.  Luxa, aliás, clamou a ser um cara à frente de seu tempo, o primeiro manager do futebol brasileiro. Montou um departamento de futebol ambulante: juntou nutricionista, fisiologista, cinegrafista, empresários amigos, batizou isso de profissionalismo e alugou a estrutura por alguns milhões de reais para clubes como Santos e Palmeiras, que toparam ter seus departamentos de futebol terceirizados para o Circo do Luxa.

No “negóxio futebol”, além do Luxa, se dão bem alguns empresários de atletas e a Globo, detentora dos direitos de transmissão das principais competições da modalidade no país. Além disso, não há como negar que parte dos jogadores dos grandes clubes tem grande potencial para serem ricos. Potencial, apenas, pois muitos deles gastam boa parcela dos rendimentos na esbórnia e/ou com pagamento de pensões alimentícias.

A figura emergente e, na minha opinião, mais divertida do “negóxio futebol” é a do micro empresário que bate na porta dos clubes com projetos milionários e inovadores, influenciado pelo mundo milionário e colorido da Champions League, que hoje passa em TV aberta no Brasil. Esses filhos da geração Football Manager não entendem como o clube diz não a um “projeto a longo prazo sensacional e que certamente trará retorno para o clube no futuro”. Eles não sabem (ou fingem não saber) que parte dos dirigentes brasileiros  são seguidores da filosofia Carpe Diem: “colhe o instante, sem confiar no amanhã”. Um projeto dura o tempo de um mandato, investimento inicial só é dado para a compra de atletas e “retorno financeiro futuro” é a última coisa que eles desejam ouvir.

Os clubes brasileiros estão afundados em dívidas e, por mais que agora alguns deles estejam tentando se profissionalizar, no final das contas, a politicagem dos cartolas é o que ainda impera nos corredores.  Além disso, mesmo que um clube brasileiro resolva fazer tudo certinho, o potencial de gerar receita com o futebol é pra lá de superestimado, como bem revela Oliver Seitz, pesquisador brasileiro do Football Industry Group da Universidade de Liverpool, em sua matéria publicada no Site Universidade do Futebol.

Oliver compara o faturamento do São Paulo FC em 2008, 158 milhões de reais, o maior entre os clubes brasileiros, com o faturamento da Itaiquara, que vende produtos de panificação e, na época, era patrocinadora da Portuguesa. A Itaiquara foi a milésima empresa em vendas pelo ranking da Exame, faturando 320 milhões de reais em 2008. Ele ainda lembra que, caso o clube paulista tivesse enviado seu balanço para o ranking da revista, dividiria a milésima centésima nonagésima quinta posição com a hidrelétrica Ponte da Pedra, de Mato Grosso, que conta com apenas 6 funcionários. Enfim, a matéria é muito boa e vale a pena ser lida na íntegra: http://www.universidadedofutebol.com.br/2009/08/3,10933,FERMENTO.aspx

Se no Brasil, onde ainda praticamos o “negóxio”, pregamos a profissionalização para que os clubes, mesmo que não virem entidades multimilionárias, tenham uma administração decente para que possam ser competitivos, na Inglaterra a reclamação é justamente contra o excesso de profissionalismo. O successo mundial da Premier League aliado ao liberalismo economico do país fez o futebol Inglês virar um negócio com “C”. Negócio esse que atraiu bilionários investidores estrangeiros, hoje donos de clubes como Manchester United, City, Liverpool e Chelsea.

Em breve colocarei aqui os scans da matéria que escrevi para a Revista Fórum sobre essa mercantilização dos clubes ingleses, que tem revoltado os torcedores na Terra da Rainha e decepcionado os investidores que, assim como os personagens da indústria brasileira, superestimaram as receitas de um clube de futebol.

Rogan Taylor, meu professor no Grupo da Indústria do Futebol e um dos defensores da volta do romantismo ao esporte, costuma dizer que é preciso enxergar os limites do futebol como um negócio, a começar por sua essência: quando resolvemos amar um clube de futebol, “compramos” um “produto” que certamente nos trará mais insatisfação do que alegrias durante a vida. Logo, um clube não é um comércio qualquer. “Ninguém pede para que suas cinzas sejam jogadas no telhado de um supermercado. Mas, toda semana, tem alguém tendo suas cinzas jogadas em um estádio de futebol”, exemplifica, mostrando que o principal combustível dessa indústria ainda é o torcedor; os malucos que se dispõem a ir num estádio ou gastar 90 minutos na frente da TV. E isso ainda é amor, não business

E em homenagem aos torcedores, deixo as imagens do torcedor símbolo de 2009. Alheio ao jogo, à lição de moral do Galvão e ao business

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Este post foi incluido em Sabado, 6th Fevereiro, 2010 as 15:19 na categoria Geral. Voce pode acompanhar todos comentarios neste post atraves do feed RSS 2.0.

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